O nacional no cinema brasileiro
Por Stephanie Dennison*
Esta apresentação divide-se em duas partes. Primeiro, faço reflexões sobre a utilidade do conceito de “cinema nacional” no contexto da produção cinematográfica brasileira. Segundo Vitali e Willeman, é comum os estudiosos de cinema nacional começarem seus textos alertando para a impossibilidade ou pelo menos a dificuldade de escrever a história do cinema em termos de formações culturais nacionais, para depois prosseguir e fazer exatamente isto. Começarei, porém, argumentando que, contrastando com muitos outros “cinemas nacionais”, à primeira vista é fácil falar de um cinema nacional brasileiro. Por exemplo, diferentemente do caso dos cinemas britânico e espanhol, o cinema brasileiro funciona quase exclusivamente em uma língua, e o uso desta língua ajuda a diferenciá-lo do cinema dominante (Hollywood), evitando assim uma série de problemas do tipo experimentado pelo cinema australiano, por exemplo.
A língua portuguesa também distingue o cinema brasileiro da produção de filmes em outros lugares na América Latina, apesar da tradicional insistência dos acadêmicos na Europa e nos Estados Unidos em tratar em conjunto todos os cinemas latino-americanos. Dito isto, é possível examinar o Cinema Novo dentro da ótica transnacional do Novo Cinema Latino-Americano: o chamado projeto continental, na expressão de Zuzana Pick. Vale também reconhecer o impacto que estratégias financeiras transnacionais, tais como o Ibermedia, estão tendo no cenário cinematográfico brasileiro.
Mas estas são apenas algumas maneiras de pensar em filmes brasileiros: não impossibilitam, nem dificultam, o ato de escrever a história do cinema brasileiro em termos de uma formação cultural nacional. Acredito que a melhor maneira de analisar os filmes produzidos no Brasil ainda é, em primeiro lugar, como produtos da sua cultura cinemática e contexto sócio-político local.
Além do mais, não há cinemas “sub-nacionais” para complicar noções do nacional no Brasil, nem comunidades diaspóricas com tradições estabelecidas em fazer cinema fora do país. É claro, como muitos outros estudos recentes de cinemas nacionais também revelam, o conceito de transnacionalidade está paulatinamente transformando tanto a indústria cinematográfica no Brasil quanto a maneira com que os filmes se relacionam com a sociedade que os produz.
O Brasil não apresenta nenhuma dificuldade grave com respeito aos limites do nacional em termos de fronteiras e governança (contrastando, por exemplo, com o cinema nacional britânico e especificamente o cinema feito na Irlanda do Norte). Dito isto, segundo alguns observadores, como resultado do status do Brasil de país “neo-colonial e de terceiro mundo”, os cineastas têm se preocupado com as ramificações do nacionalismo.
Como colocam Stam, Vieira e Xavier, “dado o domínio estrangeiro do mercado, e dados os imensos obstáculos que dificultam a realização dos filmes, o cinema brasileiro costuma ser elevado em termos do seu serviço ao ‘desenvolvimento’ e ‘liberação nacional’. Os cineastas expressam suas personalidades criativas, mas também se vêem como parte de um projeto coletivo maior: a consolidação de um cinema nacional”.
Johnson segue a mesma linha de pensamento: “o fato de o cinema brasileiro competir com indústrias cinematográficas altamente organizadas e capitalizadas faz com que sua própria sobrevivência fique problemática sem a assistência do Estado. Portanto, sua postura de nacionalismo econômico e cultural é mais enfatizada que outras áreas da produção cultural”. O resultado desta ameaça neo-imperial, imaginada ou não, é uma maior preocupação com “o nacional”. Pretendo, na apresentação, me deparar neste assunto, citando exemplos da produção cinematográfica mais recente.
Na segunda parte da apresentação abordarei o que para mim é um assunto-chave na discussão do conceito de cinema nacional no Brasil: a questão da inclusão. Aqui faço observações sobre a) dificuldade que a maioria dos cidadãos brasileiros tem em acessar os mecanismos de apoio ao cinema no Brasil e b) ‘o público’ – aquela audiência aparentemente há muito perdida, mas deveras procurada, e o relacionamento ambíguo que o cinema tem com seus espectadores. Concluindo, abordarei a posição que o cinema brasileiro ocupa atualmente no Reino Unido.
Bibliografia
Valentina Vitali e Paul Willeman, ‘Introduction’, em Valentina Vitali e Paul Willeman (orgs), Theorising National Cinema (London: BFI, 2006), p.3
Zuzana M Pick, The New Latin American Cinema: A Continental Project (Austin: University of Texas Press, 1993).
Robert Stam, João Luis Vieira e Ismail Xavier, ‘The Shape of Brazilian Cinema in the Postmodern Age’ em
Randal Johnson e Robert Stam (orgs), Brazilian Cinema (New York: Columbia University Press, 1995), p. 395.
Randal Johnson, The Film Industry in Brazil: Culture and the State (Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1987), p.107.
*Resumo da palestra no “Ciclo de Conferências: Cinema Brasileiro: Desafios Culturais e Econômicos”. Doutora em Estudos Brasileiros. Professora da Universidade de Leeds, Inglaterra. Dois livros publicados sobre o cinema brasileiro (de co-autoria com Lisa Shaw): Popular Cinema in Brazil, 2004 e Brazilian National Cinema, 2007. Co-organizadora dos livros Latin American Cinema: Essays on Modernity, Gender, and National Identity, 2005 and Remapping World cinema, 2005. Editora do jornal acadêmico britânico New Cinemas. Fundou o programa de pós-graduação em World Cinemas da Universidade de Leeds.
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