Produção de cinema virou “farra do dinheiro público”

Por Belisa Figueiró

A grande quantidade de dinheiro público por meio das leis de incentivos fiscais e o mau uso dessas verbas foram os enfoques principais da palestra do secretário municipal de Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil, no Ciclo de Conferências – Cinema Brasileiro: Desafios Culturais e Econômicos, realizado em São Paulo neste final de semana. Para ele, o setor “virou uma indústria do incentivo fiscal, uma grande farra do dinheiro público”. “No Brasil, tudo é ao contrário. Tem gente ganhando dinheiro e a atividade está indo para o buraco. Há negócios, mas não há mercado”, enfatizou.

Calil referiu-se à dependência total das verbas públicas para que os produtores e cineastas consigam fazer seus filmes e que a necessidade de dar dinheiro até mesmo para os projetos de roteiro “é uma aberração”. “Na época da Embrafilme, havia uma dependência de 70%, 80%. Hoje é mais de 100%”. Para ilustrar, Calil contou que foi entrevistado por um jornalista coreano que queria entender como funcionava essa máquina brasileira de investir em cinema. E o estrangeiro teria chegado à mesma conclusão que ele: “O cinema brasileiro é escolhido por comissões de bancos que não entendem nada de cinema, é bancado pelo governo e 100% incentivado. ‘Isso não faz nenhum sentido’”, teria dito o jornalista.

Produção

Em sua conferência, anterior à de Calil, o ex-vice presidente da Motion Picture Association (MPA) para a América Latina, Steve Solot, que mora há 20 anos no Brasil, disse que os incentivos previstos na Lei de Audiovisual, principalmente no artigo 3º, que abre espaço para co-produções, são muito “invejados em outros países”. Na sua opinião, também há um vazio de capacitação de produtores. “O governo brasileiro dá muitas oportunidades, mas o setor privado não está preparado”. Solot inclusive abriu uma empresa para dar cursos e treinamentos para que os produtores brasileiros se tornem mais profissionais: a Latin American Training Center, situada no Rio de Janeiro.

Calil concorda com Solot e vai além. De acordo com ele, o produtor é a figura mais fraca no Brasil e que até mesmo os cineastas são mais privilegiados do que os produtores, enquanto que, nos Estados Unidos, o produtor é aquele que pensa como e para o público. Para ele, enquanto as produtoras não tiverem uma força maior e poder de dialogar com a distribuição, a situação não vai mudar.”Falar em 100 filmes por ano é uma tolice, é distribuir dinheiro. É uma realidade baseada em uma outra conjuntura, do tempo das pornochanchadas. Essa política não dá resultados, isso não é competitivo hoje”.

O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), lançado no dia 4 de dezembro por representantes da Ancine, Ministério da Cultura e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deverá mexer um pouco nesses entraves, segundo Calil. Ao invés dos próprios cineastas tentarem aprovar seus projetos nas comissões “e tentarem colocar o pé da Cinderela num sapatinho pequeno”, serão os produtores que lutarão por essa fatia. “Se nós conseguirmos que as produtoras se capitalizem, já será alguma coisa”, acredita o secretário.

Distribuição

Com dados de 1995 até 2006, o coordenador da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Marcelo Ikeda, mostrou que 25% dos filmes brasileiros são distribuídos pelas majors norte-americanas dentro do país e que 60% dos filmes nacionais lançados por elas captaram mais de R$ 3 milhões nos últimos anos. Atualmente, 52 empresas atuam no mercado de distribuição no Brasil, sendo elas majors, independentes ou estatal, como é o caso da Riofilme. Outro dado importante levantado por Ikeda é o fato de que o setor de home vídeo ainda tem uma receita maior do que a das salas de exibição, mas ainda não é possível acompanhar tão de perto o desempenho dos filmes nesse mercado de DVDs.

Co-produção

Desde o final dos anos 1990, a grande porta do Brasil tanto para a produção quanto para a distribuição é a abertura para as co-produções internacionais, segundo Solot. O Programa Cinema do Brasil, que trabalha para esse vaivém de diretores e produtores em diversos festivais e promove rodadas de negócios entre brasileiros e estrangeiros, serve de inspiração para vários países do exterior, de acordo com ele.

Mas o grande problema para viabilizar, ou facilitar, as co-produções internacionais continua sendo a burocracia nos órgãos nacionais para enviar dinheiro público brasileiro para o parceiro internacional ou mesmo receber as cópias do próprio filme, que muitas vezes são detidas nos aeroportos pela Receita Federal. Essa foi uma questão levantada pela platéia presente no evento e respondida por Marco Farani, diplomata do Itamaraty.

Segundo ele, é preciso que representantes do setor do audiovisual conversem com a Receita de forma instrumental. “É preciso reunir o grupo e mostrar que esses problemas estão atrapalhando o setor. É obrigação dessas pessoas [da Receita] ouvir o setor. Nem que tenha que pedir para um deputado ligar para um ministro. É preciso ser atuante na democracia. Eles não estão lá só para atrapalhar, por mais que pareça”, afirmou.

Estabelecer acordos bilaterais ou multilaterais, de acordo com o diplomata, não é difícil. Basta reunir representantes dos dois ou mais países e assinar um papel. O que não é tão fácil é criar uma política pública conjunta entre a Ancine, o MinC, o Itamaraty e a Receita, dificuldade que “não condiz mais com o nosso país globalizado”. O Brasil atual, em suas palavras, “agrega prestígio internacional e produz uma cultura que não está à sombra de outros países”.

Identidade

A questão da identidade do cinema nacional foi abordada pela pesquisadora Kátia Maciel, que falou sobre a necessidade de se trabalhar o cinema, a televisão e a música de forma mais conjunta e voltada para o popular. Para ela, isso atrairia mais o público doméstico, porque a produção estaria mais próxima dos espectadores, nesse caso, por meio da televisão.

Na opinião de Kátia, é estranho e curioso o fato de muitos cineastas brasileiros preferirem fazer publicidade para ganhar o dinheiro necessário para realizarem os seus filmes de arte ao invés de fazerem filmes populares. Filmes de arte, inclusive, que, para ela, não chegam a ter esse encontro com o grande público depois de pronto.

Nesse sentido, Calil discorda da pesquisadora e questiona o que seria hoje um filme popular. Ele citou o exemplo de “Dois Filhos de Francisco”, filme que tem um apelo de música popular, foi aclamado pela crítica e que levou mais de 6 milhões de pessoas às salas de exibição. Outra dificuldade nesta questão de identificar o cinema nacional é quanto ao gênero, segundo ele. O próprio cinema nacional virou um gênero inclusive nas locadoras de vídeo. “Os filmes não estão nas estantes de ação, infantil, comédia. Quem é que vai a uma locadora e pede para ver um filme nacional? Vai querer um gênero que lhe convém. Você sabe qual é o gênero de ‘Tropa de Elite’ e ‘Cidade de Deus’, mas e os que não fizeram sucesso? Se o filme brasileiro não é colocado como uma opção dentro dos gêneros, ele não é nem lembrado”, define.

No exterior, principalmente no Reino Unido, segundo a pesquisadora da University of Leeds, Stephanie Denilson, o cinema brasileiro é visto dentro do contexto Latino Americano como um todo: vibrante e exótico, e não como um gênero local. “Cidade de Deus”, por exemplo, foi melhor recebido lá do que “Cinema, Aspirinas e Urubus”, porque é mais “rápido”, de acordo com Stephanie.

Internet

As principais saídas apontadas por Kátia, Calil e Ikeda é o uso das novas mídias e tecnologias para sanar os problemas de distribuição. Kátia também levantou a possibilidade de se investir melhor em jogos eletrônicos para alavancar o comércio e o marketing dos filmes. A Internet e o You Tube, para Calil, promovem a “consagração instantânea” e não é mais necessário confinar o público dentro de uma sala.

Nessa linha, Ikeda lembrou que 92% das cidades brasileiras não têm salas de cinema e que essa não é a solução. O mercado cada vez mais é personalista, segundo ele, e cada espectador vê o seu filme no próprio computador, celular ou televisão.

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