Brasil, soft power e a cultura cinematográfica

Por Stephanie Dennison e Alessandra Meleiro

No final de 2009, a revista “The Economist” memoravelmente anunciou a chegada do Brasil sobre o palco mundial com sua capa, hoje infame, que mostrava a icônica estátua do Cristo Redentor carioca literalmente “decolando”. Foi precisamente nessa época que o Brasil começou a ser incluído em discussões sobre o “soft power”, e em três anos a revista “Monocle” já declarava que “o sol brilha sobre a marca Brasil”. Uma manchete da BBC online no início de 2010 descrevia o Brasil como “importante exponente do soft power”:

“Pegue um país que está em paz consigo mesmo e com todos seus dez vizinhos. Acrescente uma economia forte e estável, com um líder carismático e democraticamente eleito e enormes reservas de óleo inexploradas, e qual é o resultado? Brasil.”

Na discussão da cultura no contexto da diplomacia pública, ou, melhor dizendo, como instrumento da política externa, o conceito de “soft power” proposto por Joseph Nye (a ideia de que os países podem empregar atração, em lugar de coerção, para conquistar apoio internacional) chama a atenção para o papel fundamental de legitimação exercido pela cultura nas ações internacionais de um país. No caso do cinema, o “soft power” é inegavelmente usado como instrumento da política externa governamental, na medida em que está ligado a padrões de comportamento e consumo. Porém, para usar o cinema como instrumento de “soft power” é preciso explorar métodos eficazes de internacionalização.

No caso do Brasil, a possibilidade de utilizar o cinema para finalidades de política externa, na linha do modelo teórico de “soft power” desenvolvido por Nye, ainda parece distante. O alcance internacional do cinema brasileiro ainda é demasiado limitado para influenciar em qualquer grau significativo a percepção do Brasil no exterior. Para que o cinema brasileiro possa tornar-se um instrumento real de poder da diplomacia cultural do Itamaraty, é preciso que a política pública se concentre mais sobre a criação de oportunidades de ampliar o espaço disponível para o cinema brasileiro no exterior.

Isso está começando a acontecer por meio de mais iniciativas para incentivar a coprodução internacional de filmes e as vendas de filmes de produção nacional. O Brasil, país dotado de uma indústria audiovisual doméstica forte, mas que não tem nenhuma visão da “marca cinematográfica nacional” na arena internacional, vem trabalhando para aumentar essa visibilidade, para a qual, podemos argumentar, os pontos de “soft power” representam um bônus, e não o objetivo almejado, que, em última análise, é o do aumento de vendas.

Mas, de volta àquele momento dourado de 2009, encontramos uma produção que pode de fato ser vista como, na melhor das hipóteses, uma tentativa direta de utilizar a tela grande para promover uma imagem particular do país, e, na pior, como propaganda do Estado: trata-se de “Lula: Filho do Brasil”, de Fabio Barreto. O filme é uma cinebiografia de Lula, então um dos presidentes mais populares e respeitados do mundo. O que é significativo é que Lula ainda estava na Presidência e já preparava o caminho para sua sucessora, a menos carismática Dilma Rousseff. Fato revelador, como que querendo desviar quaisquer críticas potenciais sobre possíveis motivações políticas por trás da produção, os créditos de abertura do filme anunciam o fato de que não foram usadas leis municipais, estaduais ou nacionais de incentivo para financiá-lo. O filme, que custou R$17 milhões e foi, na época de seu lançamento, o filme brasileiro mais caro de todos os tempos, foi financiado por uma longa lista de patrocinadores do setor privado, que incluíram, como a revista “Veja” (em 2009) não deixou de observar, muitas empresas que tinham contratos com o governo. Mais tarde, em 2015, aproveitando a transmissão do filme pela televisão, a “Veja” (em 2015) chamou a atenção para o fato de que muitas dessas empresas patrocinadoras, como a muito difamada construtora Odebrecht, foram subsequentemente denunciadas por envolvimento no escândalo da Lava Jato.

Lula, seus familiares e representantes de seu partido lotaram o auditório na première do filme no Festival de Cinema de Brasília em 2009, fora da competição, e seu envolvimento na produção foi escancarado por sua bem documentada contribuição na escolha da música que acompanhou cenas importantes, por exemplo. Mas o fato que, para muitos observadores, ilustrou de modo inquestionável o caráter oficial de “Lula: Filho do Brasil” foi sua escolha para representar o Brasil na categoria de melhor filme estrangeiro (ele não chegou a ser um dos indicados ao prêmio, o que não chegou a surpreender). A escolha foi vista por muitos como incomum, considerando que “Lula: Filho do Brasil” é ainda mais estética e narrativamente limitado que “O Quatrilho”, também de Fabio Barreto, surpreendentemente incluído entre os indicados ao Oscar de filme em língua estrangeira em 1995. O comitê nacional de seleção declarou que, entre os trabalhos apresentados para ser considerados, “Lula” foi visto como sendo o que tinha mais chances de ser bem recebido pela Academia, em vista do alcance internacional de seu tema: o próprio Lula.

Em contraste marcante com 2009, em 2016, com a exceção de um hiato breve durante as Olimpíadas, parece que a anistia da mídia internacional em relação ao Brasil chegou ao fim, algo que, em termos de “soft power”, parece ter levado o Brasil a novamente ocupar-se com exercícios de limitação de danos, dentro do contexto do gerenciamento de sua reputação, ao invés de qualquer programa ambicioso que envolvesse a dinamização de seus trunfos de “soft power”, como o fato de ter sediado eventos esportivos internacionais.

Um exemplo muito revelador disso, em relação ao cinema, aconteceu recentemente no festival de cinema de Cannes. Pela primeira vez em muitos anos, um filme brasileiro, “Aquarius” (de Kleber Mendonça Filho) foi selecionado para participar da competição oficial. Em Cannes,houve algumas discussões sobre o filme, que recebeu críticas altamente positivas e chegou à capa da revista “Variety”, mas o que acabou fazendo manchetes foi a oportunidade que o elenco e a equipe técnica do filme aproveitaram sobre o tapete vermelho para chamar a atenção para o solapamento da democracia que estava ocorrendo no Brasil com o processo de impeachment da presidente. A reação de partidários do impeachment no Brasil foi forte, tendo sido voltada especialmente contra Sonia Braga, que, como atriz de Hollywood em sua época áurea, nos anos 1970 e 1980, ironicamente cumpriu o papel de trunfo do” soft power brasileiro”, promovendo a cultura cinematográfica brasileira. De acordo com muitos comentaristas em sites de mídia social, Sonia não deveria ter envergonhado o país (essa foi a frase amplamente usada na época) e não tinha direito algum de falar de política brasileira, já que vive em Nova York. Críticas foram expressas também pelo novo ministro da Cultura, Marcelo Calero, que descreveu o protesto como “infantil”. Entrevistado na televisão brasileira ele disse, aludindo ao diretor Kleber Mendonça Filho: “Acho ruim, em nome de um posicionamento político pessoal, causar prejuízos à reputação e à imagem do Brasil”.

Isso é interessante no contexto do “soft power” por diversas razões. Para começar, se voltarmos às resenhas do filme feitas pela imprensa internacional na época, veremos muitos elogios à qualidade do filme e nenhuma atenção real voltada a quais aspectos negativos do país a história socialmente consciente explora. Na realidade, o crítico do jornal britânico “Telegraph”, por exemplo, intitulou sua resenha “‘Aquarius’ vai fazer você ter vontade de se mudar para o Brasil”. Em segundo lugar, o filme não foi selecionado para representar o Brasil na disputa pelo Oscar de filme em língua estrangeira. Mesmo que descartássemos as alegações de que o processo de seleção é manipulado, a decisão parece demonstrar um desconhecimento completo da parte dos profissionais do setor do cinema que compõem esses comitês de seleção quanto ao que constitui um filme com chances de conquistar um Oscar: um filme que já tenha sido exibido no circuito dos festivais, ou terá sido exibido antes do Oscar, e conquistado prêmios nessa trajetória, com isso aumentando suas chances de ser exibido o mais amplamente possível nos EUA; um filme que tenha sua própria história provocante, e um filme que tenha o apoio da crítica e do público.

A suspeita de que o gesto declaradamente político em Cannes tivesse excluído “Aquarius” da seleção foi expressa quando Marcos Petruccelli, crítico declarado de Kleber Mendonça Filho e suas posições políticas, foi nomeado para participar do comitê de seleção. Em seguida, “Aquarius” foi liberado para exibição no Brasil com a classificação de proibido para menores de 18 anos, um verdadeiro “beijo da morte” nas bilheterias. Suspeitando de má fé, dois cineastas tiraram seus filmes da disputa pela seleção para o Oscar, em protesto. O trabalho que acabou sendo selecionado, “O Pequeno Segredo”, foi até certo ponto um mistério para a maioria das pessoas, considerando que nem sequer tinha chegado aos cinemas quando foi escolhido.

Tanto “Lula: Filho do Brasil” quanto “Aquarius”revelam a desconfiança profunda de grande parte da população brasileira em relação ao financiamento da cultura pelo Estado e também o grau em que o papel do cinema nacional é incompreendido por muitos. Essa desconfiança e incompreensão dificultam a própria noção do cinema como potencial trunfo de “soft power” no Brasil, já que para muitos o cinema, por sua própria natureza de gênero artístico comercialmente impopular e caro que depende fortemente de financiamento público para sobreviver e pela associação estreita que tem com a política de esquerda e, mais recentemente, com o projeto do PT, não é tão prontamente reconhecido como parte da “marca Brasil” quanto são, por exemplo, o futebol, a música e as telenovelas brasileiras. Isso ficou claro na atenção voltada por muitos comentaristas de mídias sociais ao gesto elitista do elenco de “Aquarius” protestando de smoking sobre um tapete vermelho na Europa.

Como Joseph Nye argumentou, o “soft power” depende “da existência de intérpretes e destinatários abertos a ele”. Considerando que os festivais de cinema são o principal foco da estratégia brasileira para aumentar a visibilidade do cinema nacional no exterior, pensamos que não estamos falando aqui em um público que provavelmente estará sedento por narrativas grandiosas sobre nação e história, do tipo que já se tornou suspeito. Para essas plateias, as tensões em casa e como são expressas (pelo tipo de protesto ao qual assistimos em Cannes, por exemplo), podem gerar um valor de curiosidade para as plateias dos festivais, algo que incentivará as exportações de filmes do Brasil, algo que, por sua vez, pode exercer influência sobre a opinião no Brasil. Assim, apesar de uma perspectiva econômica pior que sombria e do desmonte acelerado de uma narrativa estratégica nacional que foi bem recebida no exterior, acreditamos que ainda existe valor em se explorar o cinema como trunfo de “soft power” brasileiro.

Fonte: Folha de S. Paulo
Link direto: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/10/1824967-brasil-soft-power-e-a-cultura-cinematografica.shtml

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